0 Dobras e falhas

sexta-feira, 11 de junho de 2010
Ainda antes de começarmos a caminhar, saltava-nos à vista uma grande dobra no monte que se erguia à nossa frente. Mas não era a única. À medida que íamos caminhando, encontrávamos com facilidade dobras menores, visíveis na barreira da estrada ao longo da qual nos deslocámos.

 A grande dobra que víamos do outro lado do vale.


Pormenor da zona da dobra



Algumas dobras que encontrámos na barreira de estrada. 
Mas nesta última, encontrámos mais alguns vestígios....


Nestes quartzitos (a rocha acinzentada), encontramos marcas de ondulação, semelhantes às que ainda hoje encontramos na areia da praia, quando a maré baixa. Então, de acordo com o princípio do actualismo (que está na base do uniformitarismo), podemos afirmar que esta zona já se encontrou um dia debaixo de água.... Mas como, se nos encontrávamos numa zona tão elevada?

Para saber mais, consulta a página "A Pangea e o Geoparque"

0 Os grifos

De onde estávamos, sentimo-nos completamente observados pelos grifos que iam rondando os céus por cima de nós. O grifos (Gyps fulvus) são aves necrófagas, que nidificam em locais escarpados e de difícil acesso.

 Grifo (Gyps fulvus). Imagem extraída da net, em Flickr.com


Contudo, na zona de Vila Velha de Ródão, também existem abutres de Rupelli (Gyps rueppellii), aves pouco comuns em Portugal. Sem o auxílio de binóculos, foi-nos difícil saber qual das aves estariamos a observar....

Grifo de Ruppell (imagem retirada da net, deste site)

Contudo, os seus vestígios eram mais que evidentes, pela coloração esbranquiçada que as suas fezes dão às zonas mais inacessíveis e elevadas das escarpas rochosas que se erguiam à nossa frente.


Para saber mais a respeito dos grifos, e até ver um vídeo, aqui vai uma visita ao site da Quercus, que nos apresenta grifos em directo.

Estes animais necrófagos são bastante ameaçados, embora desempenhem um papel importante no consumo dos corpos dos animais que naturalmente vão morrendo. Contudo, a crescente ocupação humana dos seus habitats, com a extensão das linhas de abastecimento eléctrico e a instalação de parques eólicos, bem como a diminuição da actividade pecuária (e a consequente diminuição da disponibilidade de alimento) tem vindo a contribuir para a diminuição da população destes animais, cada vez mais ameaçados.

0 As portas de Almourão

Do local onde nos encontrávamos, pudemos observar que o rio Ocreza passava por um caminho bastante diferente ao longo do seu percurso. De montante para jusante, o vale era bastante estreito, de vertentes altas e escarpadas. Depois, de repente, passa a ser bastante menos escarpado, mais largo e menos rochoso. No local de encontro entre estas duas zonas, dá-nos a sensação que o rio passa por umas portas. Daí a designação "Portas" de Almourão.
 
 Portas de Almourão. Inicialmente o vale, no local onde as rochas são mais claras, é bastante escarpado. 
Depois passa a ser menos rochoso e coberto de vegetação, bastante mais largo e de vertentes mais suaves.

O que é que motivará esta diferença? Possivelmente a diferença de rochas.
 As rochas mais escuras são quartzitos, e as rochas da zona mais larga são xistos. O rio teve de erodir o caminho para poder passar através das rochas. Quanto mais duras e resistentes forem essas rochas, mais escarpado será o vale, como acontece com os quartzitos. Na fotografia abaixo, encontra-se uma amostra de quartzito, que fotografámos no local.

 Os quartzitos são rochas metamórficas bastante duras, resultantes da alteração de areias siliciosas, constituídas principalmente por quartzo, o mineral que na escala de Mohs apresenta uma dureza de 7.


Já os xistos, são rochas metamórficas, resultantes da compressão das argilas. Como são menos resistentes, são mais facilmente erodidos pela passagem da água, originando-se assim vales mais largos.

 Amostras de xistos argilosos, que fotografámos no local. 
É óbvia na imagem a pouca resistência destas rochas à pressão e à alteração.

0 Recomeçando....

Depois de muito tempo sem postar, cá vou então recomeçar a dar uma pequena ajuda para interpretar o que vimos.

Quando chegámos a Idanha-a-Nova, fomos conduzidos até à zona da Foz do Cobrão, onde pudemos observar o monumento natural das Portas de Almourão.


Logo naquele local, conseguimos com alguma facilidade observar grandes dobras nas rochas, e ao longo do percurso, deparámo-nos com alguns icnofósseis que nos indicaram a presença de trilobites.

 Dobras visíveis na barreira da estrada

 As cruzianas - vestígios da passagem de trilobites

Do outro lado do rio, junto à aldeia de Sobral Fernando, era possível observar vários conhais, vestígios da exploração de ouro que era feita nas margens do rio Ocreza no tempo dos Romanos.


Não nos podemos esquecer também da Biologia. Os grifos rondavam os céus, e os vestígios dos seus ninhos também eram notórios nas rochas, nomeadamente pelos seus dejectos que iam deixando as rochas branquinhas. Os líquenes e os musgos lembraram-nos como seriam os ambientes primitivos de colonização do meio terrestre. Afinal foram eles os primeiros a aventurarem-se fora de água :)


E foi esta a nossa viagem. Convido-vos a tentar reconstituir a história daquele local, que começa com o fecho de um oceano e a formação de um super-continente, a Pangeia. Se pesquisarem um bocadinho, poderão ver que tudo o que observam é devido a estes movimentos do nosso planeta, muito mais inquieto do que à primeira vista possa parecer.

1 E lá fomos nós.

segunda-feira, 29 de março de 2010
Foi um stress conseguir chegar à escola a tempo.
Mas lá conseguimos, e o autocarro ainda esperava por nós.
Rumámos a Vila Velha de Ródão, muito animados durante o caminho. Houve guitarradas e músicas para todos gostos, de vozes sempre bem afinadinhas, e moral sempre em cima :)



Belo pequeno almoço na estação de serviço, mas o receio de apanharmos chuva começava a ser grande. Felizmente, apanhámos só um bocadinho de chuva e frio, mas nada que nos assustasse.

Fiquem atentos ao que vem a seguir.

0 Algumas indicações práticas

quinta-feira, 25 de março de 2010
Bem jeitosos, o dia aproxima-se a passos largos.
Queria deixar-vos algumas indicações de carácter prático:

1) A hora de partida será
  • às 07h45 em Pavia (para vir com o melhor chofer do mundo)
  • às 08h00 na escola
  • às 08h15 em Cabeção para os sortudos que podem dormir mais um bocadinho. 
2) Levar comida não só para o almoço mas contar também com os lanches a meio da manhã e da tarde, bem como o regresso à escola.

3) Máquina fotográfica + caderno de apontamentos. Imprescindível para uma saída de campo. A máquina fotográfica por motivos óbvios; o caderno de apontamentos não o levem demasiado grande, senão torna-se um bocado mal-jeitoso para transportar no campo.

4) Vestuário e calçado. Confortáveis. Não se esqueçam de que vamos caminhar e fazer actividade física. Ok, não precisam de ir de fato de treino, mas também não levem roupinha de domingo....


5) Não se esqueçam de levar uma pequena mochila (diferente da que leva a comida) para poderem transportar convosco durante os percursos a máquina fotográfica, caderno de apontamentos, uma ou outra amostra e uma garrafa de água que de certeza ninguém se vai esquecer ;)

6) Conduta em campo: muita atenção às regras estipuladas pelo monitor. E por favor, não se ponham todos a trazer amostras, senão não fica nada para quem vem a seguir, né???

0 O caminho

quarta-feira, 24 de março de 2010
Uma das primeiras perguntas que me fizeram foi: "professora, onde fica?"

Pois bem, o geoparque está sob a alçada de vários municípios: Nisa, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Vila Velha de Ródão, Proença-a-Nova e Oleiros. Só por aqui já podem ter uma ideia da extensão do parque....

A imagem que se segue dá-nos uma ideia da localização destes concelhos.



Pesquisando um pouco no viamichelin, descubro que vamos demorar cerca de 1h45m a chegar a Nisa, o sítio onde vamos entrar no parque.

Não é muito. Para visitar um monumento destes vale a pena ;)